Festival de Parintins by LUCAS LANDAU

Como dizem as letras das toadas (músicas da festa do boi-bumbá), é um boi de veludo com uma estrutura metálica por baixo, manipulada por um homem do qual não se vê o rosto, e que interpreta a maior estrela da noite, durante uma apresentação de 2h30 de cada agremiação no festival de Parintins, no Amazonas (a 370km de Manaus). Esses homens — famosos pela função — são chamados de tripa, pois, segundo me contou um morador, ficam onde estariam as tripas do boi.

Folclore não trabalha com o racional e taí a poesia do festival. O sentimento dos moradores de Parintins pelos bois de pano preto e branco com uma barra de cetim embaixo é inspirador e contagiante. Revigora embarcar nas toadas por 5 horas no bumbódromo lotado com 40 mil pessoas durante três noites seguidas.

Se no início da primeira noite cheguei com um olhar um tanto desconfiado para aquele boi de mentira descendo de um carro alegórico de 10 metros de altura pendurado em um balanço que cuspia fogo pelos lados enquanto as arquibancadas deliravam, no final já estava correndo pelo bumbódromo para tentar tocar no boi, que passou por mim. “Vai que dá sorte”, pensei na hora. “Tanta gente apaixonada por ele, alguma coisa ele tem.

As pessoas amam mesmo o Garantido e o Caprichoso, os dois bois de pano. Esse amor envolve cultura, história, reconhecimento, pertencimento, protagonismo. E aí você começa a acreditar também, se envolve no sentimento bom que as pessoas nutrem pela festa e pela cultura popular. Dá orgulho de ser brasileiro e de bater no peito: também quero me apaixonar pelos bois de pano. Faz parte de quem somos, é resistência.

Voltei Garanchoso. Para mim, Garantido bateu na emoção e o Caprichoso brilhou demais. Se complementam. O festival, que reverencia a cultura indígena brasileira, é conhecido como a orquestra da selva e celebra os povos amazônicos de um ponto de vista decolonial, apresentando as caravelas e o capitalismo como vilões e não heróis (diferente de algumas escolas de samba do Rio que ainda não atualizaram a perspectiva). É aula de história contada através da cultura. Tudo que o Brasil mais precisa nesse momento.

ATL 2019 by LUCAS LANDAU

Veja a galeria completa AQUI.

O Acampamento Terra Livre (ATL) é o maior encontro indígena do país e acontece durante abril, em Brasília, há 15 anos. São promovidos debates, rodas de rituais e manifestações em prol da causa indígena. Em 2019, o grito principal foi contra o governo Bolsonaro, inimigo das causas indígenas e da preservação ambiental. Cerca de 4 mil indígenas de 26 estados estiveram presente.

The Free Land Camp (ATL, as Acampamento Terra Livre) is the largest indigenous mobilization in the country and happens during April, in Brasília, for 15 years. Discussions are promoted as well as ritual wheels and demonstrations for the indigenous cause. In 2019, the main protest was against the Bolsonaro government, an enemy of indigenous causes and environmental preservation. About 4,000 indigenous from 26 states were present.

ATL 2019 for El País by LUCAS LANDAU

Articles:

Portraits for CLAUDIA by LUCAS LANDAU

Dois retratos para a revista CLAUDIA no mês de Março (Ícaro Silva e Silvana Batini) e um retrato de Rosiska Darcy de Oliveira publicado no mês de Abril.

Michel Temer and Ronnie Lessa for Reuters by LUCAS LANDAU

(   NYT   ) Investigators say Ronnie Lessa, suspected in the murder of Marielle Franco, has ties to Brazil's president. March 14, 2019. REUTERS/Lucas Landau

(NYT) Investigators say Ronnie Lessa, suspected in the murder of Marielle Franco, has ties to Brazil's president. March 14, 2019. REUTERS/Lucas Landau

Carnaval 2019 by LUCAS LANDAU

Block Party, for Reuters:

Annual Carnival parade in Rio de Janeiro's Sambadrome, for UOL:

On assignment for UOL/Universa by LUCAS LANDAU

Brumadinho Coverage by LUCAS LANDAU

Sobre a cobertura de Brumadinho by LUCAS LANDAU

Tentativa de resgate de uma vaca atingida pela lama tóxica de rejeito de minério, em Córrego do Feijão, Jan. 27, 2019. Para BBC News Brasil.

Tentativa de resgate de uma vaca atingida pela lama tóxica de rejeito de minério, em Córrego do Feijão, Jan. 27, 2019. Para BBC News Brasil.

Inconscientemente, eu fiz uma escolha nessa cobertura de me dedicar ao hard news, ao campo, no front dos resgates no que chamam de zona quente. A parte das famílias, sobreviventes, eu não tive a capacidade de fazer. Deixei essa parte da cobertura para quem tem mais casca, eu sou novato.

Não consegui colocar a câmera na frente de alguém em uma situação de tanta dor — talvez a maior dor que eu já tenha visto de perto. Li críticas à imprensa, dizendo que não estavam dando a devida atenção às famílias na cobertura. Falando por mim, eu não dei conta mesmo. 

Os familiares que fotografei foram contactados pelas repórteres do jornal que eu estava frilando. E mesmo assim, para mim foi difícil fazer esses retratos. São histórias que precisam ser contadas, mas a minha sensação foi péssima.

Cobrir o factual nem é a minha pira, mas trata-se do mesmo tipo de crime ocorrido em Bento Rodrigues (Mariana, MG), que afetou Regência, uma vila capixaba que tenho um trabalho e uma relação desde 2017. Brumadinho é uma extensão de Regência, eu tive que ir.

Fui na cara, na coragem e na camaradagem com o parceiro de aventuras Lucas Dumphreys, repetindo a dupla que foi para Regência, em 2017. A barragem rompeu sexta na hora do almoço e sábado de manhãestávamos lá. 

Na estrada, disparei emails e mensagens avisando às redações que estava a caminho. Consegui fechar BBC News Brasil pelos três dias, em seguida caiu no colo um freela para a Agência EFE/EPA e no dia seguinte pintou The Wall Street Journal por mais três dias.

As coisas acontecerem porque me joguei na hora certa para lá e porque tenho amigos maravilhosos sem os quais não estaria aqui. Dica número um da vida: façam boas e verdadeiras amizades, elas são tudo.

Mal chegamos e o Leo Corrêa (AP) e o Mauro Pimentel (AFP) colaram no nosso carro. Ficamos nesse bonde pela primeira semana. Eles foram fundamentais para ajudar a entender o dia a dia de uma cobertura desse tamanho.

Na segunda semana, já sem o Dumphreys e o carro dele, colei com a dupla da Reuters, Leo Benassato e Adriano Machado, só porque eles tinham alugado uma Ranger (vocês não fazem ideia a diferença que fez ter um carro grande pra essa cobertura).

Foram dias de muita risada porque os dois são especiais juntos. O que me fez questionar algumas coisas, já que rir não combinava com o ambiente. Mas, para mim, funcionou como uma espécie de bloqueio de segurança. 

No dia da missa de sétimo dia, se eu não tivesse passado a tarde toda rindo com eles, não teria aguentado fotografar e estar na igreja de Brumadinho. O equilíbrio entre o racional e o emocional é complicado.

Mas voltei orgulhoso do trabalho e dos amigos que fiz. A eles e a todos os outros colegas que foram absolutamente parceiros e me ajudaram de maneira inesquecível, meu muito obrigado. Vocês são a essência dessa cobertura.