“você já fez hipnose de regressão? sabia que talvez você seja gay porque sua mãe, inconscientemente, desejou isso?”, o francês puxa esse assunto comigo cochichando num canto do barraco.
ano passado, quando visitei o garimpo do francês pela primeira vez, me chamaram de “diferenciado”. eu não escondi que sou gay. pelo contrário, me senti confortável para me abrir. depois de cinco dias entocado no mato com dois chefes de garimpo e seus seis funcionários, perguntaram: “quando o diferenciado vai voltar?”.
voltei um ano depois. e o assunto não saiu de pauta. “você é discreto, gosto disso”, me disse francês dessa vez. “seu homossexualismo (sic) não quer dizer nada, não me interessa a sua opção sexual (sic), se você é negro ou branco ou em que religião você acredita”, diz o bolsonarista ferrenho.
francês explica que para ele existem três tipos de “homossexualismo”: o de nascença, onde eu me encaixaria, o de criação e o da perversão. lulu santos se encaixa no último perfil, por exemplo, segundo francês e sua teoria.
itumbiara, garimpeiro negro de 55 anos, me ouve falando sobre o assunto e faz questão de comentar que “não tem preconceito com nada”. conta que, um tempo atrás, brigou com um doido que ficou falando mal de pessoas negras. “preto isso, preto aquilo”, relembra itumbiara, “e a porrada estancou”.
não dá pra generalizar, mas fico com a sensação que os garimpeiros que conheci já são tão marginalizados socialmente, que não fazem com os outros o que não gostam que façam com eles.
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A miner poses with a shotgun at an illegal gold mine within an environmental preservation area in the Amazon rainforest, in Itaituba, Para state, Brazil. September 5, 2021. REUTERS/Lucas Landau