Festival de Parintins / by LUCAS LANDAU

Como dizem as letras das toadas (músicas da festa do boi-bumbá), é um boi de veludo com uma estrutura metálica por baixo, manipulada por um homem do qual não se vê o rosto, e que interpreta a maior estrela da noite, durante uma apresentação de 2h30 de cada agremiação no festival de Parintins, no Amazonas (a 370km de Manaus). Esses homens — famosos pela função — são chamados de tripa, pois, segundo me contou um morador, ficam onde estariam as tripas do boi.

Folclore não trabalha com o racional e taí a poesia do festival. O sentimento dos moradores de Parintins pelos bois de pano preto e branco com uma barra de cetim embaixo é inspirador e contagiante. Revigora embarcar nas toadas por 5 horas no bumbódromo lotado com 40 mil pessoas durante três noites seguidas.

Se no início da primeira noite cheguei com um olhar um tanto desconfiado para aquele boi de mentira descendo de um carro alegórico de 10 metros de altura pendurado em um balanço que cuspia fogo pelos lados enquanto as arquibancadas deliravam, no final já estava correndo pelo bumbódromo para tentar tocar no boi, que passou por mim. “Vai que dá sorte”, pensei na hora. “Tanta gente apaixonada por ele, alguma coisa ele tem.

As pessoas amam mesmo o Garantido e o Caprichoso, os dois bois de pano. Esse amor envolve cultura, história, reconhecimento, pertencimento, protagonismo. E aí você começa a acreditar também, se envolve no sentimento bom que as pessoas nutrem pela festa e pela cultura popular. Dá orgulho de ser brasileiro e de bater no peito: também quero me apaixonar pelos bois de pano. Faz parte de quem somos, é resistência.

Voltei Garanchoso. Para mim, Garantido bateu na emoção e o Caprichoso brilhou demais. Se complementam. O festival, que reverencia a cultura indígena brasileira, é conhecido como a orquestra da selva e celebra os povos amazônicos de um ponto de vista decolonial, apresentando as caravelas e o capitalismo como vilões e não heróis (diferente de algumas escolas de samba do Rio que ainda não atualizaram a perspectiva). É aula de história contada através da cultura. Tudo que o Brasil mais precisa nesse momento.