Neri, o freteiro-fazendeiro-pajé / by LUCAS LANDAU

Preciso falar sobre o Neri (a pronuncia é Nerí). Ele é freteiro de Canarana (MT), mas não estava na lista dos três nomes que me passaram quando cheguei na cidade em busca de um motorista para me acompanhar na cobertura das queimadas.

Mas o primeiro que liguei da lista não podia e me indicou o Neri. Que sorte! Com uma Ford F250 de 1999 com led verde na grade dianteira, sem ar-condicionado, chega esse descendente de alemão, quase da minha altura, com a maior cara de fazendeiro.

“Ferrou”, pensei num primeiro momento. Mas depois entendi que Neri é uma mistura de fazendeiro com pajé. Veio do sul (como grande parte dos brancos dessa região do Mato Grosso) e se instalou há 41 anos em Canarana, cidade com 25 mil habitantes atualmente. Teve mercado, loja e hoje vive levando e trazendo coisas pros outros — principalmente para os indígenas, da cidade para a aldeia. 

Seu trabalho fez com que esse “fazendeiro” se aproximasse dos povos indígenas. Neri tem abertura em praticamente todas as terras indígenas da região. Leva gasolina, comida, pessoas e o que mais precisarem. Às vezes nem cobra, ou deixa que o paguem dois meses à frente, o que ele compreende pela dificuldade financeira e por muitas vezes deixa a dívida pra lá. 

Neri votou no Bolsonaro mas mal sabe que é mais de esquerda do que de direita. Ou talvez saiba, já que revelou ter votado quatro vezes no PT. É contra as privatizações, contra o avanço desenfreado do #agroépop em cima das reservas ambientais, compreende o poder e a importância da natureza e é a favor dos direitos dos indígenas. No retrovisor da F250, tem pendurado um artesanato indígena com os dizeres “Deus é fiel”.

Ele conhece praticamente todas as aldeias do Xingu (especialmente entre o Alto e o Médio Xingu) e os territórios xavante, na direção de Goiás. “O cacique da aldeia tal é o fulano”, “bom dia em xavante se fala assim”, “vamos naquela terra indígena, o pajé é meu amigo”. E conhece todas as estradas, não só as asfaltadas, mas, principalmente, as de terra batida que sempre encurtam o caminho, apesar da poeira absurda que nos obriga a fechar o vidro (no muque) a cada automóvel que cruzamos.

E Neri tem sangue de jornalista, que é o que eu mais admiro nos motoristas que trabalham para a impresa. Eu não dirijo e estava sozinho cobrindo pra Reuters, enquanto os outros fotógrafos estavam em dupla, foto e vídeo. Minha dupla foi o Neri e, assim como meus colegas da agência, demos um nome pro nosso duo: equipe pajelança (mas ele prefere “equipe águias do fogo”, acho que por respeito aos verdadeiros pajés). Ele entendeu minha dificuldade da cobertura sozinho e, com um apurado faro jornalístico, se esforçou para me ajudar. E ajudou muito.

Absolutamente em todo cantinho que a gente foi, ele conhecia alguém. Abríamos as portas da Ford e eu ouvia “Neri!”, seguido de um sorriso da pessoa. Foi assim com fazendeiros, com indígenas, com ribeirinhos, com trabalhadores rurais...

Sem Neri na direção teria me perdido algumas dezenas de vezes, teria perdido tempo em estradas asfaltadas que demoram duas vezes mais, não teria entrado em tanto território indígena com a facilidade e a hospitalidade com que entramos e não teria aprendido tanto sobre o Xingu, seus povos, sobre o Mato Grosso e seu alucinado agronegócio e sobre como é viver na meiuca do Brasil. 

Ao Neri, um salve pelos encontros, pelas diferenças, pelos aprendizados, pelas longas conversas aos berros para que a gente se ouvisse apesar do barulho do motor da sua amada F250, pelo carinho pelo qual ele me tratou e pelo profissionalismo, que me proporcionou encontrar minhas histórias, fazer minhas fotos e vídeos e cumprir minha missão para a Reuters. Viva, Neri! Até a próxima, pajé.