O resgate de Regência:
Vila capixaba luta para se reerguer 30 meses após o pior crime socioambiental da história do Brasil

Resistência está na essência dos descendentes de índio que moram às margens do rio Doce

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O ano é 1887. O cruzador Imperial Marinheiro se aproxima demais da foz do rio Doce e naufraga ao bater em um banco de areia, no norte do estado do Espírito Santo, ponto famoso à época pela difícil navegação. Dos 142 a bordo, 128 sobreviveram graças ao pescador Bernardo José dos Santos, o único morador de um pequeno vilarejo entre o Atlântico e a foz do rio Doce que conseguiu enfrentar a correnteza do rio e o mar perigoso, nadando até o barco com uma corda amarrada à cintura.

Emocionada, Princesa Isabel condecora Bernardo com uma medalha de ouro em um gesto de gratidão àquele que já havia se tornado um herói nacional. A princesa regente do então Império do Brasil oferece também um presente. Aos 28 anos, o pescador filho de uma índia, que poderia escolher qualquer riqueza, aos 28 anos, pede um farol para aquela “esquina” entre rio e mar. Sua intenção era evitar futuros acidentes para os pescadores do povoado e para os que navegavam no oceano.

Floreios da cultura popular à parte, essa é uma história real, documentada, que tornou o índio Bernardo um verdadeiro ídolo local. Passou a ser conhecido como caboclo Bernardo, valente desafiador das ondas do rio Doce nascido nesse pequeno vilarejo chamado Regência Augusta, a 120 km de Vitória, onde o rio encontra com o mar.

E, desde então, como Bernardo, os moradores de Regência viveram e se desenvolveram das águas. As ondas locais atraíam turistas do Brasil todo por conta dos tubos gerados pelos mesmos bancos de areia que causaram o naufrágio do Imperador Marinheiro. Do rio Doce, entre diversas espécies de animais, pescava-se o guaibira, peixe nutritivo e famoso na região. Durante os anos, a força do caboclo herói permaneceu entre os nativos como uma referência, inspirando gerações de regencianos.

No início da década de 1990, o caboclo Bernardo ganhou um busto na praça principal dessa vila de chão de terra batida bem laranja, com 1200 habitantes (IBGE 2010) e que é distrito do município de Linhares (a 55 km). Desde 2012, outro busto faz companhia ao notável nativo. É Seu Miúdo, Elídio Angelo de Macedo, principal guardião da memória do caboclo mais corajoso que Regência já teve. Lado a lado, de costas para o rio e de frente para o vilarejo, eles representam a história e a força da cultura desse pequeno — porém forte — cantinho de terra cabocla.

Em 2017, exatos 130 anos depois do lendário naufrágio, ambos os bustos firmados na beira da rua olham para a Peixaria do Flôr, fechada há quase dois anos — mas não por falta de coragem do também pescador caboclo. O estabelecimento de seu Flôr teve que fechar as portas depois do pior crime socioambiental da história do Brasil. 

Em 5 de novembro de 2015, às 15h30, a Agência Nacional de Águas registra o rompimento da barragem de Fundão da mineradora Samarco S.A., no subdistrito de Bento Rodrigues, a 150 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Dos 56,4 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, disse a Samarco, 43,8 milhões vazaram em uma espécie de tsunami.

Conforme a lama tóxica de rejeitos de minério percorria o leito dos rios, ela aniquilava os 800 km de vida do rio Doce, que possui a maior bacia hidrográfica da região Sudeste. A lama chegou ao mar, no Espírito Santo, depois de matar 19 pessoas em Bento Rodrigues e atingir 39 municípios.

Até chegar a sua foz, no pequeno vilarejo ribeirinho ao lado sul entre rio e mar, foram 17 dias para a contaminação completa do rio Doce. E, no mar, os rejeitos se estendem por 600 km do litoral brasileiro, contaminando de Cabo Frio (RJ) a Abrolhos (BA), segundo técnicos do ICMBio. Eles também afirmam que a lama atingiu 40 metros de profundidade.

Dois anos depois do crime ambiental — e não acidente, como alertam os atingidos — ainda não houve condenados. A Vale (que tem o Governo Federal como um dos seus principais acionistas, através do BNDES e de fundos de pensão das estatais) e a anglo-australiana BHP Billiton, proprietárias da Samarco, criaram a Fundação Renova para compensar e recuperar os danos provocados pelas próprias empresas.

A sociedade civil, no entanto, não está de fato envolvida na Renova. Além de técnicos dos governos Federal, Estadual e dos municípios atingidos, o comitê que se responsabiliza por recuperar toda a extensão do rio Doce é gerido por quem causou a destruição à região.

Em Regência Augusta, muitas decisões sobre a recuperação da região são tomadas sem a participação da população. A escolha quem vai receber o cartão-auxílio da Fundação Renova e qual quantia compete a cada um fica a cargo somente das empresas. Lideranças comunitárias são convocadas para algumas reuniões, mas esses supostos líderes se tornaram enfraquecidos diante dos olhos da comunidade, que os enxerga como endossadores do discurso apaziguador da Renova.

Mesma fundação que instalou em uma loja na praça de Regência um posto de informações com folhetos sobre financiamento para empresas. Dois funcionários dão instruções para quem quiser crédito para abrir um negócio na vila. O folheto atrai o público usando a frase “parcelas fixas que cabem no seu bolso”. 

O posto de informações da Renova é o único local de Regência onde tem um segurança na porta, além da sede-museu do Projeto Tamar. Jarbas, 37, é nativo da vila e teve que procurar emprego por enfrentar dificuldades financeiras, assim como todas as famílias de pescadores e de pessoas que trabalham no setor do turismo — que, de alguma forma, são o motivo da presença de Jarbas na porta da loja da Renova: a Fundação teme protestos e retaliação de moradores que ainda não receberam assistência.

Enquanto isso, na construção exatamente ao lado, se seu Flôr quisesse manter sua peixaria aberta seria multado e poderia até perder o imóvel. O Ministério Público do Espírito Santo proibiu a pesca no rio Doce desde fevereiro de 2016, para preservar a saúde da população e a sobrevivência das espécies. Sem sua principal fonte de renda, o destino de todos os pescadores foi o mesmo do seu Flôr — aposentar suas redes e encerrar seus negócios. Hoje seus bolsos estão vazios. Porém, em alguns, há um cartão de débito.

Trata-se do cartão-auxílio da Fundação Renova para quem provou que foi impactado pelos rejeitos tóxicos. Ainda sem laudos finais sobre o estado das águas e praticamente sem assessoria técnica ambiental, os atingidos de Regência veem o cartão-auxílio da empresa como uma das saídas para enfrentar o momento crítico. Para receber a “mesada” que, no povoado, varia em média de R$ 1300 a R$ 1500 (dependendo do número de filhos), os moradores precisam provar que tiveram suas vidas impactadas pela catástrofe preenchendo um cadastro que se mostra incapaz de dar conta das privações que a lama impôs. 

As empresas não fornecem qualquer tipo de instrução ou educação financeira aos trabalhadores, que sempre precisaram se esforçar por seus sustentos. Dessa forma, a Renova inflama a ilusão de uma ajuda financeira eterna, abrindo espaço para atos considerados de irresponsabilidade. Em período de carências, há quem tenha trocado bicicletas por motos e motos por automóveis — cegos à recuperação socioambiental da região e à fragmentação das relações comunitárias de uma vila antes conhecida pela fraternidade.

Desamparados, com lideranças enfraquecidas, os habitantes sentem-se abandonados. Vivem à espera de respostas e ajuda. No entanto, para aqueles com poesia no olhar, os olhos fixos do caboclo Bernardo e de Seu Miúdo simbolicamente mirando a peixaria inspiram a esperança nesse povo guerreiro. E se depender de alguns regencianos, esse período de luto já chegou ao fim. É das raízes ancestrais que muitos caboclos de Regência tiram força para reerguerem-se.

Para esse grupo de cidadãos, a união revela-se a maior arma contra a sensação de ser refugiado em sua própria vida. E assim, há cerca de um ano e de forma independente, os moradores de Regência dão passos curtos porém firmes. O recomeço para quem se vê afogado entre o mar de lama de rejeitos e o mar de lama política é mais demorado do que se imagina, principalmente em uma comunidade tão pequena e negligenciada pelo poder público. O vilarejo mostra, entretanto, como a resiliência traz esperança aos esquecidos pela sociedade. Regência resiste.

Maio 2018, Regência (Espírito Santo), Brasil.