Incêndios florestais em Portugal: da cultura do descaso à permacultura

Dona Odete conta como foi sobreviver ao maior incêndio florestal da história de Portugal, comandante Domingues explica as razões políticas e econômicas por trás das chamas e Miguel aponta uma possível solução ambiental para esse problema recorrente

Fotos e texto: Lucas Landau
Portugal, Setembro 2018

Pinheiros caíam na estrada EN 236-1 como bolas de fogo. A densa fumaça não permitia enxergar direito, e a fuligem escurecia a paisagem. Os motoristas, em pânico, usavam a estrada como rota de fuga, mas a passagem estava bloqueada pelo caos. Os carros batiam uns nos outros, e o assustador barulho do incêndio se misturava com os gritos. Quem saía dos veículos tinha os cabelos lambidos pelo calor dantesco que passava dos 65 graus Celsius.

Ainda respirando o pouco oxigênio que restava, dona Odete Paiva, aos 68 anos à época, manteve-se dentro do automóvel com o filho, que dirigia, o marido e a irmã, depois que a nora, Susana, insistiu para que fugissem de casa. Eles se dividiram em dois carros. Susana estava sozinha com as duas netas de dona Odete.

Elas correram para a morte.
— Odete Paiva, 69, aposentada

Um jipe desgovernado bateu no veículo de dona Odete, empurrando-o para uma posição em que ela pode ver de longe um carro pegar fogo com três pessoas dentro. Ela só saberia no dia seguinte que eram suas duas netas de 12 e 15 anos e sua nora, de 40. “A gente não queria sair de casa, mas se não tivéssemos partido, nem nosso filho teríamos mais”, diz dona Odete. “Elas correram para a morte.”

Quando os quatro passageiros já estavam com queimaduras de segundo grau e a temperatura dentro do veículo chegava ao insuportável, Mario, filho do casal, decidiu que era hora de deixar o Ford Escort. Não se ouviam mais os gritos na estrada da morte, como ficou conhecida a rodovia nacional onde, em apenas 500 metros, aconteceram 47 das 66 mortes do incêndio florestal de 17 de junho de 2017, o maior da história de Portugal.

Todos os veículos explodiram, menos o Escort em que estavam. O que os salvou foi a idade do carro. Era tão antigo que, por dentro, tinha mais alumínio do que revestimento, que derrete facilmente.

Dona Odete colocou um pano na cabeça para que seus cabelos não pegassem fogo e saiu em disparada na direção oposta às chamas. Passava por cima de árvores e corpos carbonizados, quando gritava coordenadas, para que sua família a seguisse. O asfalto estava em brasa, os chinelos derretiam, e seu foco era sobreviver. Atrás, a irmã, com 80 anos, era carregada pelo filho e pelo marido.

Uma explosão queimou as costas de dona Odete, mas o desespero anestesiou as dores. Ela e os parentes conseguiram escapar e chegar a Pedrógão Grande, cidade vizinha a Várzeas, aldeia onde moram até hoje.

Como pode no meio de tantos mortos vocês ficarem vivos?
— Perguntou a Policia Judiciária, durante a investigação

A equipe de resgate não escondeu a surpresa ao ver que aquela senhora saíra viva do incêndio com maior número de vítimas em Portugal. Minutos depois, surgiram os outros três sobreviventes da família Paiva. “Como pode, no meio de tantos mortos, vocês estarem vivos?”, perguntou a Policia Judiciária, durante a investigação.

Na EN 236-1, parentes de vítimas deixaram homenagens na beira da estrada que ficou conhecida como “estrada da morte”, em Pedrógão Grande, Portugal. Setembro 2018. © Lucas Landau

A EN 236-1 conecta Pedrógão Grande a Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, passando por diversas aldeias do interior central do país. Devido à falta de informações, muitas pessoas fugiram de suas casas sem saber que estavam correndo para a morte. Várzeas perdeu 17 moradores (nove da mesma família), três da família da dona Odete. Restaram 29 pessoas na aldeia.

A irmã de dona Odete, hoje com 81 anos, teve um distúrbio psicológico após a tragédia e atualmente mora em um lar para idosos. O casal de aposentados continua vivendo na mesma casa, que não foi atingida pelo fogo. Hoje o filho mora sozinho e luta para seguir uma vida traumatizada. Não sai de casa por dias, não se comunica e se tornou uma pessoa obesa. Feridas psicológicas irreparáveis que dificilmente cicatrizarão.

Um uniforme seca no sol após bombeiros controlarem um incêndio florestal na aldeia Penacova, em Lorvão, Portugal. Setembro 2018. © Lucas Landau

Hoje, aos 69 anos, dona Odete, que, até então, se considerava católica, diz que não acredita em mais nada. Não há Deus, energias positivas ou estrelas no céu que a consolem. “Não há nada que traga minhas meninas de volta. Onde estava Deus naquele momento?”. Vestida de preto, com um olhar perdido em lágrimas, ela me recebeu para uma conversa espontânea de três horas em sua casa, em que descreveu detalhadamente a noite de terror.

Apesar do ceticismo, o gesto de extremo carinho comprova a sua força. Ela autorizou que o texto fosse escrito, mas pediu para que não fosse fotografada ou filmada. “Por que não fomos eu e minha irmã e não ficaram aqui as minhas princesas? Por quê? Mas o destino foi assim, maldito destino”, fala ao mostrar três porta-retratos com as fotos de Margarida (15), Joana (12) e Susana (40). Com a pouca voz que restou após inalar tanta fumaça, seu Eduardo Paiva, 73 anos, marido de dona Odete confessa chorando: “É muito doloroso e estamos saturados da imprensa.”

A vida dessa família nunca mais será a mesma por conta da incompetência do governo português. É o que diz o Ministério Público (MP), órgão responsável por investigar o incêndio. O MP acusa o governo pela morte direta de 64 pessoas. Mais duas mortes aconteceram de forma indireta: um atropelamento durante a fuga da catástrofe e uma morte por pneumonia, após internação. Segundo o órgão público, o governo deveria ter feito o monitoramento da previsão meteorológica, a limpeza da vegetação e o bloqueio da estrada EN 236-1. 

Segundo o jornal Expresso, de Lisboa, o MP vai indiciar a Proteção Civil — o equivalente, no Brasil, à Defesa Civil — como culpada pelas mortes. O órgão diz que a origem do incêndio foi um raio mas os investigadores apontam “causas indetermináveis”. Faltou gestão das florestas, um plano de evacuação e faltou prever a mudança do vento, que driblou a equipe de Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, sob responsabilidade do comandante Augusto Arnaut — outro acusado pelo MP. Em conversa, o comandante Arnaut disse se sentir injustiçado e preferiu não dar entrevista.

A procuradora Ana Simões sustenta a tese de que as mortes poderiam ter sido evitadas, se não tivesse ocorrido falhas na prevenção e no combate ao fogo, com o acionamento imediato de meios aéreos para combater o fogo — o que foi feito apenas duas horas depois das primeiras chamas, quando já estavam sem controle.

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera, José Domingues, 61, concorda que o Estado seja o grande responsável pela falta de prevenção. “Estamos inseridos na maior área florestal contínua da Europa. Há muito combustível nas nossas florestas, não é só o que está na vertical, mas o que está na horizontal também”, diz referindo-se à falta de limpeza da vegetação mais seca, que está mais suscetível a incêndios. ”Com o vento a propagar, não é fácil, nem possível, em tão pouco tempo, fazer uma intervenção”, defende.

O envelhecimento da população agrava a situação. Segundo Domingues, falta mobilidade para os camponeses limparem seus terrenos e faltam também bombeiros voluntários. “Aos 18 anos, o pessoal vai embora estudar. Em maio, entraram oito brigadistas, precisamos de mais uns 20. Não é fácil, estamos tentando remar contra a maré”, reconhece o comandante.

Noventa por cento da área queimada era composta por eucalipto, árvore que cresce e também queima muito rapidamente. A monocultura do eucalipto é um dos motores da economia nacional. Não há nenhum país do primeiro mundo com a quantidade desta árvore como Portugal. 

Desde junho de 2017, os eucaliptos são alvo de polêmica. Já ocorreram diversos protestos contra as madeireiras, a maioria silenciosa por medo de retaliação da grande indústria. No entanto, na entrada de Castanheira de Pera, a pixação “eucaliptus não” (sic) pode ser lida em uma placa que agradece a solidariedade da população no combate ao fogo. A placa está afixada ao lado de uma grande área construída para armazenar madeira.

“Não acho que o eucalipto deve acabar porque é um bem econômico pro país, que move muito dinheiro, cria muitos postos de trabalho. Mas tem que saber estruturar a plantação”, opina o comandante Domingues. Segundo a AIMMP (Associação de Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal), entre 2011 e 2016, o volume anual de vendas de madeira aumentou 11%, chegando a 3.335.076.158,00 euros. Não há dados disponíveis referentes ao ano de 2017.

Fontes ouvidas pelo BIG afirmaram que madeira queimada tem valor de mercado menor e, consequentemente, é mais vendida. Quando questionada, a AIMMP parou de responder os e-mails.

Não sei se pode ser chamado de terrorismo, negligência ou motivo econômico, mas está a se fazer muita coisa por maldade em Portugal
— José Domingues, 61, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera

Domingues utiliza seus 42 anos de experiência como bombeiro voluntário para analisar: “Nos últimos anos tem havido um acréscimo de ignições. Não sei se pode ser chamado de terrorismo, negligência ou ambição econômica. Mas está a se fazer muita coisa por maldade em Portugal.” 

Sem controle, os eucaliptos já voltaram a renascer das cinzas, pouco mais de um ano depois do grande incêndio. Em alguns anos estarão prontos para queimar novamente. É uma espécie de jogo de azar: se queimarem, Portugal mergulha em uma nova catástrofe, se não queimarem, a continuidade do lucro é certa para a indústria da madeira.

“É a monocultura do eucalipto que alimenta a Europa com papel. O que acontece aqui não é só responsabilidade de Portugal, mas de toda a Europa”, diz Miguel Humblet, 48. O belga mantém com a esposa portuguesa uma casa de reabilitação espiritual e ambiental chamada Gravito, na região de Pedrógão Grande. Ele explica que a monocultura do eucalipto retira os nutrientes e a água do solo, deixando-o ácido.

“Há uma grande demanda europeia para produzir tudo isso, seja papel para jornal ou papel higiênico, sem saber os efeitos que isso causa.” Praticante e estudioso de formas alternativas de agricultura, Miguel viu sua casa ficar intacta apesar de estar localizada no meio de um vale que foi engolido pelo fogo — que levou sete dias para ser apagado.

“Eu vi o incêndio chegando por três direções na minha terra, mas no meio disso havia uma ilha verde, protegida. O fogo parou nas linhas de proteção em que trabalhamos com a terra e com a água do rio que corta o Gravito”, explica. Ao redor da propriedade, ele criou um anel hídrico que umedeceu a terra e afastou o calor. “É um sistema feito pelo poder da água, trazendo-a para cima e para baixo, alimentando a terra e devolvendo-a para o rio”.

Miguel dedica-se à permacultura, à agricultura sintrópica e à agrofloresta para encontrar uma possível saída para os incêndios florestais. O conceito básico das três vertentes é baseado no equilíbrio como método de preservação. “Plantamos tudo muito próximo, para as raízes ficarem juntas e a natureza escolher o que for relevante para a seu êxito. As plantas ajudam umas as outras, como em uma floresta de verdade”, diz.

As lições da permacultura são simples e extraordinárias. Apesar do clima árido e da falta de chuva do verão português, as flores colorem a plantação de Miguel — as folhas atraem as abelhas, que fazem a polinização. Ao fundo, a paisagem ainda destruída contrasta com a riqueza da agrofloresta do Gravito, que mistura componentes florestais com o cultivo de hortaliças em suas plantações.

A ideia de Miguel é testar a agrofloresta e a permacultura em sua terra, que chama de “laboratório” e, em seguida, repassar o conhecimento a agricultores locais, através da sensibilização e da formação prática, junto com outras entidades ambientais locais, como a Raiz Permanente, Reflorestar Portugal e a Eco Interventions.

Em outubro acontece em Castanheira de Pera a primeira reunião para trocar conhecimento a partir desse projeto de coalizão ambiental. “É uma oportunidade para criarmos algo juntos e não ficarmos depressivos sobre a situação. Não estamos fazendo para nós, mas para as próximas gerações”, resume Miguel.

Miguel colhe tomates e pepinos; ao fundo outra parte do “laboratório” onde testa a permacultura. Pedrógão Grande, Portugal. Setembro 2018. © Lucas Landau