Sobre a cobertura de Brumadinho / by LUCAS LANDAU

Tentativa de resgate de uma vaca atingida pela lama tóxica de rejeito de minério, em Córrego do Feijão, Jan. 27, 2019. Para BBC News Brasil.

Tentativa de resgate de uma vaca atingida pela lama tóxica de rejeito de minério, em Córrego do Feijão, Jan. 27, 2019. Para BBC News Brasil.

Inconscientemente, eu fiz uma escolha nessa cobertura de me dedicar ao hard news, ao campo, no front dos resgates no que chamam de zona quente. A parte das famílias, sobreviventes, eu não tive a capacidade de fazer. Deixei essa parte da cobertura para quem tem mais casca, eu sou novato.

Não consegui colocar a câmera na frente de alguém em uma situação de tanta dor — talvez a maior dor que eu já tenha visto de perto. Li críticas à imprensa, dizendo que não estavam dando a devida atenção às famílias na cobertura. Falando por mim, eu não dei conta mesmo. 

Os familiares que fotografei foram contactados pelas repórteres do jornal que eu estava frilando. E mesmo assim, para mim foi difícil fazer esses retratos. São histórias que precisam ser contadas, mas a minha sensação foi péssima.

Cobrir o factual nem é a minha pira, mas trata-se do mesmo tipo de crime ocorrido em Bento Rodrigues (Mariana, MG), que afetou Regência, uma vila capixaba que tenho um trabalho e uma relação desde 2017. Brumadinho é uma extensão de Regência, eu tive que ir.

Fui na cara, na coragem e na camaradagem com o parceiro de aventuras Lucas Dumphreys, repetindo a dupla que foi para Regência, em 2017. A barragem rompeu sexta na hora do almoço e sábado de manhãestávamos lá. 

Na estrada, disparei emails e mensagens avisando às redações que estava a caminho. Consegui fechar BBC News Brasil pelos três dias, em seguida caiu no colo um freela para a Agência EFE/EPA e no dia seguinte pintou The Wall Street Journal por mais três dias.

As coisas acontecerem porque me joguei na hora certa para lá e porque tenho amigos maravilhosos sem os quais não estaria aqui. Dica número um da vida: façam boas e verdadeiras amizades, elas são tudo.

Mal chegamos e o Leo Corrêa (AP) e o Mauro Pimentel (AFP) colaram no nosso carro. Ficamos nesse bonde pela primeira semana. Eles foram fundamentais para ajudar a entender o dia a dia de uma cobertura desse tamanho.

Na segunda semana, já sem o Dumphreys e o carro dele, colei com a dupla da Reuters, Leo Benassato e Adriano Machado, só porque eles tinham alugado uma Ranger (vocês não fazem ideia a diferença que fez ter um carro grande pra essa cobertura).

Foram dias de muita risada porque os dois são especiais juntos. O que me fez questionar algumas coisas, já que rir não combinava com o ambiente. Mas, para mim, funcionou como uma espécie de bloqueio de segurança. 

No dia da missa de sétimo dia, se eu não tivesse passado a tarde toda rindo com eles, não teria aguentado fotografar e estar na igreja de Brumadinho. O equilíbrio entre o racional e o emocional é complicado.

Mas voltei orgulhoso do trabalho e dos amigos que fiz. A eles e a todos os outros colegas que foram absolutamente parceiros e me ajudaram de maneira inesquecível, meu muito obrigado. Vocês são a essência dessa cobertura.