Quando a água bate na bunda / by LUCAS LANDAU

Kaiowás e Guaranis dançam guaxiré no tekoha Laranjeira Nhanderú, na região de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul. Dezembro, 2018. © Lucas Landau

Kaiowás e Guaranis dançam guaxiré no tekoha Laranjeira Nhanderú, na região de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul. Dezembro, 2018. © Lucas Landau

Como me disse a documentarista Eliza Capai depois da posse, “foi terapêutico estar lá”. Terapêutico é uma palavra que define bem a experiência desafiadora de estar no meio dos fãs de Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no primeiro dia de 2019. 

Desde que o gigante acordou tento entender a cabeça dessas pessoas que não são a maioria do Brasil, mas foram a maioria eleitoral em 2018. No intuito de fotografar o momento histórico e de compreender melhor as pessoas, entrei no espírito bolsominion e fui à posse. 

Vesti amarelo, coloquei a câmera e duas lentes em duas pochetes. Passei por duas revistas sem problemas. Na primeira, com o equipamento desmontado dentro das pochetes, fui liberado por um simpático major que não botou fé que eu passaria pela revista seguinte. 

Pois passei e com a câmera no pescoço. Mal revistaram as bolsas. Falei que era fotógrafo independente e segui rumo ao Congresso, de onde não pudemos passar porque a praça dos Três Poderes estava cheia. O foco era fotografar o presidente, então não fiz fotos do público — também para evitar atritos. O clima estava ácido, não queria ser confundido com a imprensa credenciada. 

Ao meu lado, na fila da segunda revista, as pessoas hostilizavam a equipe da Rede Globo, que agora é odiada por todos. Para conseguir filmar a cena (a cobertura em vídeo está em “Posse”), sorri com simpatia aos que gritavam contra a emissora. Entendi que precisava colocar pra fora todo o Wolf Maia que existe dentro de mim para não ficar exposto naquela situação.

Coloquei a corda da câmera no pescoço, como nunca faço em trabalhos, mudei minha postura e o jeito de andar. Tentei encenar um fotógrafo ingênuo, meio bobo. Deu certo. Usei o detalhado roteiro do dia, que recebi no Whatsapp, como uma maneira de me conectar com as pessoas. A maioria não sabia a programação do dia e transmitir as informações foi o jeito de me aproximar. 

Daí em diante cantei “a nossa bandeira jamais será vermelha”, gritei “mito” e olhei feio para quem falou “Lula livre” em uma brincadeira atrás de mim. Deu para notar a raiva que sentem do PT, do Lula, da esquerda. Chamar o outro de “petista” virou xingamento. Como chegamos a esse ponto? 

Por que uma política que pensa nos menos privilegiados ofende e afeta tanto essas pessoas? Dirão que é porque roubaram no passado, que hoje prezam o fim da corrupção, mas no fundo saí com a sensação de ser uma questão de classe muito forte. O brasileiro médio, como bem definiu a Eliane Brum, está ferido. 

O público era majoritariamente de classe média. Aqueles que esperam ser ricos há muito tempo ao mesmo tempo que assistem a uma nova classe social surgir com muito poder de compra. Mesmo não caindo de patamar, a proximidade com a classe c por conta da sua ascensão fez com que a estagnada classe média sentisse a redução dos seus privilégios. A água bateu na bunda. 

Na frente do Congresso, os 21 tiros de canhão foram comemorados com euforia. Os olhos brilhavam, a felicidade transbordava nos sorrisos. O sentimento era de conquista. Havia uma esperança no ar, um otimismo que os une por acreditarem em uma ideia que chamam de nova.

Só extrapolei o personagem em um momento, quando gritavam “egoísta” para os que estavam mais próximos da grade e não queriam se sentar, como pedia quem ficou para trás. “É meritocracia, galera, quem chegou mais cedo merece ficar em pé na frente”, falei em voz alta. Mudei de lugar em seguida, por prudência. 

Nós que estávamos lá fomos tratados como gado pelo Exército. E ninguém gostou. Ficamos em cercados de grama sem pode sair, com pouco banheiro e uma caótica distribuição de água em copos plásticos que não deu conta de hidratar quem sofria no sol forte. 

Na saída, o Exército foi vaiado por quem queria ir embora e não podia. Após xingamentos e gritos de “abre”, a saída foi liberada e um carro do Exército com caixa de som se direcionou ao público tocando música sertaneja, como quem pedia desculpa passando o recado: “estamos todos em casa”. O morde e assopra comum dos relacionamentos abusivos.

As pessoas feridas, individualistas e com pouca inteligência emocional, desconhecem empatia. Citam Jesus Cristo mas não se colocam no lugar do próximo. Vestem estampa militar e fazem a arma com a mão mas vaiam e xingam o Exército quando não estão satisfeitos. Concordam com meritocracia mas chamam de egoísta quem chegou primeiro e ficou em um lugar melhor. Clamam por bons modos mas furam a fila da entrada. 

Parece que elas estão perdidas por conta do medo de ficar sem o que conquistaram nas últimas duas décadas. Lembro daquela frase: “o PT criou consumidores e não cidadãos”. Com a maturidade de um jovem mimado de 16 anos, filho de um pai ausente, que recebeu dinheiro em vez de amor, a maioria eleitoral do Brasil metralha por aí sua falta de afeto através da agressividade.

E talvez essas pessoas nunca perdoem o passado. Por isso, o afeto é uma ferramenta poderosa nos próximos anos. Quando te perguntarem “o que fazer para ajudar na luta?”, responda: transmita afeto. Como nas religiões, a esquerda precisa de missionários para formar sua base. Que em 2019 a gente possa pregar e semear a palavra do afeto. Bom ano a todos!